segunda-feira, 8 de abril de 2013

OCUPAÇÃO HUMANA E MODO DE VIDA NA AMAZÔNIA: BREVES CONSIDERAÇÕES *



A relação homem-natureza sempre se deu de forma muito complexa. Desde os tempos pré-históricos da sociedade humana, onde pode-se afirmar ter existido uma suposta sujeição do homem ao meio-ambiente, encontrando-se indícios que levaram alguns teóricos a afirmar um “determinismo geográfico”, exercido pela natureza sobre o homem. Este é o caso do alemão Friedrich Ratzel, que ao formular suas teorias sobre o meio ambiente e o homem, afirmou ser o homem um ente determinado por condições climáticas, ou outros fatores naturais. Outros estudiosos, como o francês Paul Vidal de La Blache, defendiam a teoria do Possibilismo Geográfico, afirmando o homem como aquele no qual a natureza se encontraria como uma fornecedora de possibilidades e não a agente determinante do meio ambiente sobre o homem.

Ao se analisar o modo de vida do caboclo e o seu papel nas atividades produtivas, vemos importantes características deste individuo como modeladoras da configuração sócio-territorial da Amazônia brasileira. Assim, as atividades realizadas pelos caboclos e caboclas amazônicos determinam o próprio relacionamento com o meio ambiente, o direcionamento da produção e, consequentemente, da subsistência familiar, e a inserção na economia da região. Sendo que, essa organização espacial dos habitantes da região amazônica, com ênfase ao caboclo, segue em muito a oportunidade de geração de renda de acordo com a disponibilidade dos recursos naturais locais, com destaque para ocupações em áreas de terras baixas (várzea, praias), em áreas altas e secas (terra-firme), além dos espaços envolvendo esses dois ecossistemas, onde o meio em que o homem vive e as formas que ele produz e reproduz sua subsistência determinam seu modo de vida.

Ao pensarmos na Amazônia devemos considerar os modos de vida da civilização local e anterior ao dito “descobrimento”, ou seja, dos índios, que foram incorporando novas culturas e assim criando uma “padronização”, no que diz respeito às características próprias para a região, porém, com aspectos similares a outros grupos em outras regiões do país. É nesta perspectiva que Charles Wagley observou em meados do século passado que existe um modo de vida distintamente tropical, com características próprias, tanto no sistema produtivo agropecuário ou extrativista, como no meio de transporte utilizado na Amazônia, por exemplo, em que os habitantes da Amazônia agregam ao seu cotidiano o rio, como sendo sua rua, seu local de comercialização e por onde o cotidiano caboclo se passa.

A partir da assimilação do conhecimento dos índios nativos que ocupavam o ambiente de várzea do amazonas e com padrões impostos pelo antigo sistema colonial, o caboclo desenvolveu um sistema adaptativo próprio de aproveitamento de recursos que possibilitaram-lhe o desenvolvimento e a combinação de várias atividades de subsistência. Desse modo, tem-se a caça, a pesca, o cultivo da mandioca (Manihot utilíssima) e a extração de alguns recursos da floresta de várzea e de terra-firme, que permitiram a esses individuos viabilizar sua auto-suficiência e relativa independência de mercados externos, como ocorreu no apogeu a borracha no inicio do séc. XX.

Com base nessa tradição adquirida no uso dos recursos naturais que as populações caboclas amazônidas, ribeirinhas aos rios ou não, começaram também a serem conhecidas como populações tradicionais. Essas populações tradicionais amazônidas desenvolveram uma série de práticas comuns à região, em que a utilização dos recursos naturais pelo caboclo amazônida demonstra a combinação de diversos costumes dos grupos étnicos, dos quais o caboclo sofreu influencia no passado. A maneira de como o caboclo pesca ou prepara sua comida, tem tanto a característica do índio, do africano, do europeu e do nordestino brasileiro. Esse amalgama cultural vem constantemente sofrendo influencia das novas tecnologias exteriores ao meio rural amazônida, fazendo com que o caboclo absorva novos paradigmas culturais, que influenciam em seus padrões comportamentais como, por exemplo, a utilização de novos materiais na pesca artesanal, na agropecuária, ou na aquisição de novos equipamentos, como o barco motorizado, televisão e de outros eletrodomésticos, os quais vão alterar o ritmo e a velocidade da produção realizada pelas populações caboclas.

O conhecimento do modo de vida do homem na Amazônia deve fornecer aos elaboradores/gestores de Políticas Públicas os indícios do que deverá ser modificado, para que possam ser melhorados os modos de vida das populações residentes na região. Esse (re)conhecimento permitirá prever algumas das reações provocadas com a introdução de novos elementos na cultura amazônica. Nessa perspectiva, o estudo de populações amazônidas ajuda a entender o comportamento e a buscar benefícios para os moradores de toda a região, onde os problemas enfrentados são similares como, por exemplo, da falta de infra-estrutura técnica para a produção pesqueira, aquícola ou agropecuária, apoio técnico na resolução de problemas relacionados com o meio ambiente, a falta de saneamento básico, a criação de meios de transportes eficazes e adaptados às necessidades locais, além da melhoria no precário sistema de segurança pública, entre outros.

Então, reconhecer o modo de vida tradicional do caboclo amazônida é um instrumento metodológico para se visualizar as territorialidades exercidas por esses habitantes. Pois os modos de vida criam hábitos e costumes identificados espacialmente, ou seja, territorializados que se manifestam no espaço e agregam aos seus cotidianos novos usos e novas formas de se manejar os recursos naturais.


Por: Christian Nunes da Silva 
 


* Esse texto trata-se de uma síntese de um artigo completo que foi publicado originalmente sob o título “Ocupação humana e modo de vida na Amazônia”. Revista Vivência. nº. 35. Natal: UFRN, 2008.

terça-feira, 26 de março de 2013

O ENSINO DOS MAPAS NA ERA DA (GEO)INFORMAÇÃO[i]

A forma de educar, de maneira rígida e sem críticas, foi notada durante um longo período nas disciplinas escolares que, durante anos, sofreram poucas modificações em seus conteúdos e no modo de ensinar utilizado pelo educador, considerado tradicional, inflexível e que inibia a criatividade do alunado. A principal característica do ensino tradicional se pauta em disciplinas meramente descritivas, enciclopédicas, decorativas, distantes da realidade vivida pelos alunos, onde o “decoreba”, ainda, acaba imperando. Contudo, nos dias de hoje, com a diversidade de tecnologias disponíveis, os professores tendem a modificar suas práticas docentes, levando em consideração não somente como o aluno demonstra-se em sala, mas como age no seu cotidiano e no relacionamento com a sociedade.

Nesse sentido, os métodos e as técnicas de repassar o conhecimento também sofreram alguns avanços. Pois, assim como em outras atividades humanas, o ensino de cartografia também vem sendo beneficiado com os avanços ocorridos nos últimos anos na informática e em suas ferramentas computacionais. Se no passado, a ferramenta principal no processo de ensino aprendizagem da cartografia era baseado somente em mapas impressos em atlas e em livros didáticos, na atualidade a diversidade de softwares e ferramentas disponíveis na internet possibilita aos professores uma atualização constante e o dinamismo das aulas que envolvem produtos cartográficos.

Nos mapas impressos em livros didáticos e em atlas escolares a realidade é mostrada de forma “estática”, figurativa e muitas vezes sem relação com o texto principal, em que o papel do professor enquanto intermediador para se alcançar o conhecimento depende muito da formação do docente, onde, caso o professor não tenha estudado a cartografia em sua formação superior, o ensino fica prejudicado. O ensino tradicional, apesar de ainda hoje estar presente, antigamente, era repassado majoritariamente em todas as escolas do país, e agora é visto, com menos força, em alguns poucos resquícios em que a educação tradicional ainda se mantém, onde a localização de objetos e fenômenos é simplificada pela apresentação de mapas – de forma figurativa, em que os mapas e seu uso não possibilitam aos alunos um caráter crítico sobre a realidade que está nas ações humanas.

Nos dias de hoje, a popularização da informática e o acesso a textos e a produtos cartográficos em formato digital, além da flexibilidade/facilidade no manuseio das chamadas geotecnologias (hardwares, softwares e técnicas direcionadas para a geração de geoinformação, ou seja da informação espacial/geográfica), facilitou as atividades produtivas de diversos indivíduos, não somente para os professores de geografia ou de outras ciências humanas, mas de profissionais de várias ciências que integram às suas atividades docentes o ensino do/e pelo mapa, além de outros sujeitos que utilizam essas geotecnologias em sua localização cotidiana, como o Sistema de Posicionamento Global – GPS, ou a visualização das imagens do Google Earth, ou em outros sites de empresas privadas e governamentais (figura 01 e 02). Essa facilidade gerada com o avanço da informática, aliada aos conhecimentos cartográficos desenvolvidos durante séculos de estudo, que agora estão dispersos nos computadores, tiram do docente aquele velho pretexto de que não sabe cartografia devido a sua formação superior deficiente.
Figura 01: Site I3GEO – Ministério do Meio Ambiente
Fonte: http://mapas.mma.gov.br/i3geo

            Todavia, apesar da grande importância do conhecimento apreendido em sala de aula no ensino superior, o número de textos, livros, softwares e tutoriais sobre cartografia, sensoriamento remoto, geoprocessamento e geoinformação em geral, permitem que qualquer indivíduo tenha acesso aos produtos cartográficos da era digital. Além disso, os sites, blogs e listas de discussão sobre essa temática vem se multiplicando diariamente, devido a facilidade do manuseio e ao fascínio que o ambiente computacional oferece para a confecção de produtos cartográficos. As figuras 01 e 02, dos sites do Ministério do Meio Ambiente e do Ministério das Cidades, demonstram essa realidade, onde não somente as empresas aderiram ao ambiente WebGis, mas também diversos órgãos públicos.
Figura 02: GeoSnic – Ministério das Cidades
Fonte: http://geosnic.cidades.gov.br/

             Os atlas digitais disponíveis na internet, juntamente com a tecnologia WebGis que vem sendo desenvolvida, com suas camadas vetoriais e raster, são a prova indiscutível da popularização causada por essa demanda crescente de usuários da cartografia e da geoinformação. Como reflexo, os produtos cartográficos também vem sofrendo adaptações em seus formatos de apresentação, como por exemplo a elaboração de Modelos Digitais de Terreno – MDT, anamorfoses (figura 03) ou outros cartogramas complexos (figura 04), entre outras “lógicas”, que também possibilitam a geração de produtos cartográficos antes poucos comuns, devido às complexidades matemáticas envolvidas na sua elaboração.
   
Figura 03: Anamorfose Indicando a População Brasileira por Estado.
Fonte: http://www.worldmapper.org/

Dessa forma, se antes o professor tinha que se preocupar com sua formação docente em nível de graduação e pós-graduação em sua área de estudo, atualmente a formação contínua (inter, trans e multi)disciplinar é imprescindível e pode ser buscada em cursos de curta duração em diversas Instituições de Ensino Superior (IES) no país. Essa educação continuada deve atender a demanda gerada pelo acesso que a internet oferece, disponível não somente ao professor, mas também ao seu alunado, cada vez mais questionador e ansioso por novos conhecimentos. Dessa forma, é mais comum nos dias de hoje não somente aprender a ler os mapas com as geometrias conhecidas dos continentes ou países, mas também cartogramas e anamorfoses que demonstram a realidade complexa que está por traz das formas reais existentes no espaço geográfico, como se pode observar nas figuras 03 e 04 em que a geometria dos lugares pode ser desconsiderada segundo a importância da temática analisada no produto cartográfico. Sendo, nesse caso, imprescindível o conhecimento anterior do espaço que está sendo estudado. 
 

Figura 04: Cenários Ambientais Brasileiros
Fonte: Política Nacional de Ordenamento Territorial - PNOT (2006)

Contudo, apesar dos avanços tecnológicos, essa formação contínua docente não deve desprezar os conceitos e categorias formulados durante séculos e que embasaram todos esses anos os conhecimentos cartográficos. Pois, não se deve confundir a tecnologia, ferramenta e/ou produto final, com a ciência que fundamenta todos os conhecimentos utilizados para a criação desses produtos. Onde, mais do que “apertar botões” o usuário – professor ou aluno, tem que saber ler, entender e interpretar a informação espacial plotada, de forma que possa gerar outros produtos que levem os seus alunos/leitores a outras formas de conhecimentos. Na figura 05 pode-se observar a janela inicial do programa Amiglobe, que é um software livre que pode ser utilizados pelos professores na dinamização das aulas com mapas e globos.

Figura 05: Software Educacional Amiglobe
Fonte: http://migre.me/8Wc8A

A tendência que se mostra aos usuários de mapas - e para o ensino de cartografia, é que os WebGis terão cada vez mais divulgação e se tornarão importantes ferramentas a serem agregadas ao processo de ensino-aprendizagem, devendo o docente respeitar, sempre, a faixa etária e o nível cognitivo do seu público-alvo discente. Sem o temor da defasagem, o professor agora tem que ultrapassar o papel de simples intermediário na explicação dos mapas e se tornar um leitor/mapeador consciente que, para a dinamização de suas aulas, deverá incorporar além do uso do livro didático, atlas impresso, músicas, filmes, visitas orientadas e outras práticas. Nesse sentido, os avanços (geo)informacionais vem complementar e tornar as aulas cada vez mais atrativas para um alunado cada vez mais curioso.

PARA SABER MAIS                     


SIT – Município de Ponta Grossa: http://geo.pg.pr.gov.br/webgis/map.phtml
Recursos Hídricos no Nordeste: http://atlas.srh.ce.gov.br/
Projeto Estrada Real: http://www.er.org.br/
Google Maps: http://maps.google.com.br/maps/ms?msa=0
Ministério do Meio Ambiente – MMA/I3GEO: http://mapas.mma.gov.br/i3geo
Min. Cidades - GEOSNIC: http://geosnic.cidades.gov.br/
Springweb: http://migre.me/8W9XU  
Atlas Escolar IBGE: http://migre.me/8W9WM

Softwares Educacionais:
 
Marble: http://edu.kde.org/applications/all/marble
Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil: http://www.pnud.org.br/atlas/
Atlas Geográficos Melhoramentos: http://migre.me/8W9NP
World Map 3D: http://migre.me/8W9Qa
StatPlanet: http://migre.me/8W9ST
SPRINGWeb: http://migre.me/8W9VZ

Google Earth: http://migre.me/8W9V7

StatCart IBGE: http://migre.me/8W9Uf  
Amiglobe: http://migre.me/8Wc8A




Por: Christian Nunes da Silva









[i] Publicado originalmente com o título: O Ensino de cartografia na era da (geo) informação. In: Revista Conhecimento Prático: Geografia, São Paulo, 10 out. 2011, p. 24 – 27.

segunda-feira, 11 de março de 2013

A “BESTIALIZAÇÃO” DA SOCIEDADE MODERNA: A RECRIAÇÃO DA IGNORÂNCIA?*

É surpreendente a maneira como os objetos, a televisão e a mídia em geral atuam no cotidiano da sociedade, dita “moderna”. Essa atuação pode ser, muitas vezes, maléfica, devido influenciar de forma pervertida ou deturpada a atitude das pessoas. Na programação televisiva, nos “horários de pico”, em que a audiência televisiva é maior, observamos a maneira apelativa que as principais emissoras de televisão utilizam para chamar a atenção do telespectador, como por exemplo: o uso indiscriminado de crianças influenciadas por adultos, geralmente seus pais ou empresários, a falar verdadeiras bobagens para que nós, telespectadores, possamos rir, fazendo com que as crianças sejam subestimadas na sua inteligência. Posso citar diversos outros exemplos que mostram cenas de sexo explícito ou baixarias com brigas ao vivo e vocabulário de baixo calão.

Apesar de todas essas apresentações de pouca vergonha – ou pouco bom senso, que deixam o telespectador alienado, ainda existem as novelas onde há poucas pessoas com baixo poder aquisitivo no enredo, os que aparecem algumas cenas nem podem ser chamados de pobres, pois suas casas e os objetos que possuem (carros, roupas, etc.), podem ser consideradas de nível econômico superior do que ao do pobre brasileiro que está assistindo. Além do que, existe a influência cada vez maior à prostituição masculina e feminina com o abuso das cenas de adultério. Imagine você, pai de família, a influência que uma novela dessas tem na cabeça de sua filha (o) menor de idade. Não quero com essas afirmações que o Brasil retorne ao regime de censurava, onde toda e qualquer forma de oposição era oprimida, porém, seria interessante que na programação da televisão brasileira, e na mídia em geral, houvesse um pouco mais de ética e decência no que vai ser apresentado e bom senso, também, proporcional ao horário em que as programações são mostradas, sem cair em um moralismo exacerbado. 

Com certeza chegamos ao fundo do poço no que diz respeito à “ética televisiva”, apresentada atualmente e que nos é imposta pelos grandes “dragões” da mídia, que criam, re-criam e descriam atores, pessoas outras que se tornam publicas por alguns dias (brothers) e cantores, estes últimos, muitas vezes, donos de uma voz horrível que fazem sucesso com músicas sem letra e danças ridículas (pocotó, pocotó...). Então, no momento em que você estiver na sua casa à noite ou em um domingo na frente da televisão (que a programação televisiva é paupérrima, no quesito cultura útil), ligue-a somente no horário do telejornal, tente ouvir uma música, alugue uma fita de vídeo, um DVD (que lhe possibilitem alguma aprendizagem) ou escolha o meio pelo qual a maioria está escolhendo – o meio da valorização da ignorância, da alienação, da bestialização, pois este é o caminho mais fácil de ser seguido e apreendido.

Em nosso tempo, todos os objetos e ações – ou sistemas de objetos e sistemas de ações, já possuem um discurso pré-definido, onde é possível se observar que esse discurso atual embutido, pré-existente ou pré-determinado nos objetos e nas ações, facilita a “recriação da ignorância” no/do indivíduo, pois esse sujeito torna-se incapaz de pensar sobre o discurso que já existe e cada vez mais incapacitado de fazer o discurso do todo. Sobre esse assunto, o geógrafo Milton Santos afirmou em sua obra que “os objetos têm um discurso, um discurso que vem de sua estrutura interna e revela sua funcionalidade. É o discurso do uso, mas, também, o da sedução. E há o discurso das ações, do qual depende sua legitimação. As ações necessitam de legitimação prévia para ser mais docilmente aceitas e ativas na vida social e assim mais rapidamente repetidas e multiplicadas. (SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: globalização e Meio-Técnico-Científico-Informacional. São Paulo: Hucitec, 1996. p. 103).

Contudo, é possível ainda fugir dessa teia midiática que nos envolve atualmente. Podemos ir ao encontro, também, de um instrumento, um objeto muito utilizado por nossos ancestrais, o qual eles denominavam de “livro”, que, além de ser difícil de serem procurados e encontrados em algumas cidades brasileiras (os bons, pois similarmente às boas músicas, também existem livros de pouco conteúdo), possuem custo elevado, frente ao poder aquisitivo da maior parte da população e não têm o incentivo adequado do Governo brasileiro para que se tornem mais acessíveis à população, para a grande maioria da população de baixa renda. Ao leitor, desejo-lhe que se encontrar um livro bom e barato, o que pode ser difícil, pois a qualidade, na maioria das vezes, é proporcional ao preço, estimo-lhe boa sorte e aproveite um momento em sua vida em que você pode adquirir o mínimo de cultura que não é lixo, pois, apesar de tudo, nenhum livro é ruim o suficiente para que não possamos aprender nada.
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* Publicado em originalmente em SILVA, C. N. A bestialização da Sociedade moderna: a recriação da ignorância?. O espaço do Geógrafo. Bauru, v.41, 2005, p. 3 - 3.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

DO VELHO AO NOVO: UMA IDÉIA SOBRE RECICLAGEM *

Que bom é ver o homem reciclar para poder conservar e preservar a natureza e o meio em que vivemos. Atualmente vemos várias manchetes na mídia mostrando como o homem tem se tornado um ser “consciente”, isto devido ao fato deste mesmo homem tentar re-utilizar materiais que podem ser reciclados. Caso não exista uma “conscientização” para a reciclagem, novas matérias-primas deverão ser retiradas da natureza e empregadas na produção, causando mais desequilíbrios ao já desequilibrado meio-ambiente. Com a busca de mais matéria-prima, existe uma tendência a aumentar os efeitos nocivos do desmatamento e com isso um crescimento dos impactos ambientais e com eles todos os problemas que isto acometeria. É certo que a idéia de reciclagem vem servindo como fonte de renda e empregos às centenas de menos afortunados das classes mais baixas do Brasil (se é que ainda existe uma estrutura ou pirâmide social confiável).
 
A realidade que está por trás da “estória” não é esta que vemos nos jornais e demais meios de comunicação, da qual existe uma idéia disforme que há uma “conscientização” da sociedade e dos industriais no que cerne a mitigação da poluição e a conseqüente solução da problemática ambiental.
 
Dados atuais afirmam que é muito mais vantajoso para um industrial, ou outro tipo de empresário, reciclar um bem para diminuir despesas do que produzi-lo da matéria-prima bruta[1]. Então, esta duvidosa “conscientização” ambiental não passa de uma nova retomada da busca por lucros imediatos (ou a mais valia) que estes empresários/industriais almejam. Não nos enganemos ao pensarmos que existe algum agente/ator com direcionamento somente ao bem comum da coletividade, pois esta idéia é utópica.

Certa vez (ano de 2003), num domingo na Praça da República, em Belém do Pará, fiz um teste com o objetivo de verificar em quanto tempo uma latinha de alumínio passaria exposta no chão, sem que algum catador de lixo/latinha viesse pegá-la, sendo que este teste poderá ser feito em qualquer capital do país[2] e o resultado será similar: joguei uma latinha de alumínio no chão e em média de 13 a 20 segundos, a mesma lata, é apanhada por uma outra pessoa, seja ela mulher, homem ou criança. Este teste mostra uma “conscientização” pela preservação/conservação do meio ambiente ou somente mais um grave problema social que devemos resolver?
 
Em outro exemplo, cito o caso da maioria dos navios que trafegam pelos rios na Amazônia que, independentemente de os passageiros despejarem o lixo no local determinado da embarcação, este lixo é posteriormente jogado no próprio rio que tinha sido poupado anteriormente. A maioria das grandes cidades do Norte do país não possuem grandes indústrias de reciclagem ativas, como em algumas capitais do sudeste e sul do país, mas este fato não quer dizer que os amazônidas sejam mais ou menos “conscientes” que os curitibanos ou paulistanos, por exemplo, mas que este é um problema estrutural de caráter sócio-político, ou será que pelo fato de nas cidades do sul e sudeste haver uma indústria de reciclagem ativa eles são mais conscientes do que os nortistas?
 
A problemática ambiental não fica longe desta discussão, pois tem base em uma falta de conscientização por parte não somente da sociedade, que não separa e tenta reciclar seu lixo, mas também dos políticos que não direcionam a um destino final adequado o lixo que é produzido nas cidades, tanto o lixo doméstico quanto o lixo hospitalar. Esta não é uma retomada popular à “conscientização” - palavra que acho errônea, pois todos temos consciência do problema ambiental atual – mas a falta de implementação de políticas públicas direcionadas às pessoas de baixa renda que estão “garimpando” o lixo, e uma política, também, de educação ambiental nas escolas de todo o país, pois é na escola que o problema será solucionado. Dados extraídos da reportagem editada no Jornal do Brasil em 13/05/2002, por Mariana Flores, afirmam que:

A reciclagem de latas de alumínio movimentou algo como R$ 850 milhões no ano passado no Brasil. A estimativa mostra que o país está liderando o ranking mundial de aproveitamento de latas para envasar bebidas. De todos os 10,5 bilhões de latas de bebidas consumidas durante o ano de 2001, 85% foram recicladas. Estima-se que 150 mil pessoas estejam vivendo da coleta e venda de latas de alumínio no Brasil. Cada quilograma, com 75 latas, é vendido por R$ 1,60. Um brasileiro que recolhe a lata e a vende para ser reciclada ganha, em média, o correspondente a dois salários mínimos por mês.


Sendo que, para o ano de 2004 o Brasil foi, pela quarta vez consecutiva, o país que mais reciclou este tipo de lata no mundo (IBGE, 2004). Qual a moral da estória? Não somos conscientes ou os políticos não oferecem condições oportunas de emprego e armazenamento do lixo doméstico, hospitalar ou industrial? Na realidade a culpa é de todos nós, já que, pelo fato de não sermos coerentes com a reciclagem, não somos duros ao cobrar o direcionamento correto dos políticos eleitos, pois ao seguirmos um padrão do dito “desenvolvimento sustentável” para a sociedade, devemos verificar primeiramente o nosso quintal para ver o outro lado da rua.




* Publicado em originalmente em C. N. Do velho ao novo: uma idéia sobre a reciclagem. O Espaço do Geógrafo. Bauru - SP, v. 35, 2003, p. 3 - 3. 
[1] A energia desperdiçada na industrialização da matéria-prima bruta é muito menor quando utilizada para remanufaturar materiais recicláveis, como papel, vidro, alumínio, etc. Sendo que os materiais recicláveis ainda poupam grandes reservas de recursos naturais, preservando, assim, o meio ambiente.
[2] Em locais de intensa circulação de pessoas.